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31 DE OUTUBRO DE 2014
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18/02/2009 - 12:12 | Atualizado em 19/02/2009 - 18:24

Fauna e flora do Pantanal

Um refúgio para a vida O ritmo das águas rege a vida e faz do Pantanal um lugar especial

As paisagens do Pantanal revelam sua abundante biodiversidade, um verdadeiro refúgio para a reprodução de espécies da fauna da América do Sul e um mosaico de formações vegetais. São as águas que determinam os tipos mais comuns de paisagens pantaneiras, um cenário em constante mudança ao longo do ano moldado pelo avanço e recuo das águas (cheia e seca).

 

Por constituir-se como elo entre vários biomas, o Pantanal é um exuberante complexo moldado pelo ciclo das águas e influenciado pelos ambientes da vizinhança. Podemos encontrar na planície pantaneira espécies animais e vegetais do cerrado (a leste), Amazônia (ao norte), Mata Atlântica (sul de Mato Grosso do Sul) e até do Chaco (a oeste). Nas partes mais altas, como no Morro do Urucum, em Corumbá, e na Serra da Bodoquena, encontram-se relictos de caatinga e bromélias, em especial entre as rochas calcárias. Por este motivo, os pesquisadores da região não costumam referir-se ao Pantanal como bioma, pois consideram um complexo com várias influências; inclusive são raras espécies exclusivas (endêmicas) do Pantanal.

 

É considerada uma das 37 Últimas Grandes Regiões Naturais da Terra, onde estão áreas caracterizadas por grande diversidade biológica, grandes extensões e baixa densidade populacional. As inundações anuais associadas à baixa fertilidade dos solos dificultam a ocupação do Pantanal e propicia sua conservação. Mesmo assim, a região apresenta crescente ameaça à biodiversidade, principalmente por causa dos desmatamentos, queimadas e grandes projetos de desenvolvimento como hidrovias, usinas de álcool e siderurgia. A ong Conservação Internacional realizou em 2005 um estudo sobre a supressão da vegetação no Pantanal. A conclusão é que o atual ritmo de desflorestamento é capaz de acabar com as florestas do Pantanal em 45 anos.

 

No Pantanal, as plantas utilizam estratégias de sobrevivência ao ciclo de cheias e secas da planície formando ambientes peculiares. As mais de 2.000 espécies vegetais de diferentes origens catalogadas na região pantaneira vivem em ambientes muitas vezes incompatíveis, promovendo um movimento relacionado ao solo e às águas. Desta forma, há uma constante variação das espécies e, em determinadas regiões, pode ocorrer uma mudança na vegetação ao longo dos anos.

 

Mesmo constituído de espécies vegetais de vários outros biomas, o Pantanal abriga grande diversidade de formações vegetais típicas com presença de algumas espécies mais freqüentes. Os pantaneiros criaram termos regionais para cada pedaço do mosaico que forma a vegetação pantaneira. Entre as formações está o acurizal, concentração da palmeira acuri, importante para a fauna, a noz serve de alimento para arara-azul-grande e a polpa do coco, para roedores e periquitos. O caule é usado como abrigo para pequenos animais.

 

Temos também o carandazal, com predomínio da palmeira carandá (Copernicia alba) espécie de origem chaquenha avistada principalmente nos pantanais no Nabileque e Porto Murtinho. Destaca-se também o algodoal – marcado pelo predomínio do algodão-bravo, arbusto semitrepador que associado a vários tipos de trepadeiras formam um emaranhando consistente. Na cheia, estas áreas ficam alagadas e na seca a vegetação serve como abrigo para os animais.

 

 

Carandazal

 

Outras designações são freqüentes como o buritizal (concentração da palmeira buriti), o espinheral (conjunto de arbustos com espinhos e trepadeiras em áreas alagáveis), o paratudal (predomínio do ipê-amarelo [paratudo – Tabebuia áurea] em áreas alagáveis), o pirizal (constituída de piri-piri - Cyperus giganteu), canjiqueiral (canjiqueira), além das singulares ilhas de vegetação flutuante formadas por espécies herbáceas (ervas) com adaptações para flutuação como o aguapé. As espécies podem se desprender e formar uma nova ilha, quando o porte é grande e com várias espécies é denominada de baceiro.

 

No ritmo do pulso de inundação

 

Quando as águas começam a subir no Pantanal formam-se as vazantes, cursos d’água temporários, sem calha e amplos que encobrem os grandes campos com gramíneas (pastagens naturais) formadas durante a seca. Leitos abandonados de rios são tomados pelas águas, formando cursos d´água sazonais com calha definida chamados de corixos. Dependendo da intensidade da cheia, áreas antes inalcançavéis para as águas podem alagar-se causando o recuo da flora. Assim como uma seca prolongada no Pantanal pode gerar um avanço da vegetação.

 

Nas áreas mais altas, onde as águas não conseguem chegar, predomina uma vegetação mais densa e arbustiva, as chamadas cordilheiras, faixas de terrenos alongados e sinuoso com espécies de cerrado e cerradão. As cordilheiras são normalmente rodeadas de campos alagáveis que, durante a seca, formam a pastagem natural considerada a principal vegetação do Pantanal. Nestes campos, há também os capões, verdadeiras ilhas de vegetação em formato circular ou semicircular em meio aos campos. A cordilheira e o capão são fundamentais para a dinâmica da vida no Pantanal. Durante as cheias tornam-se abrigo e fonte de alimentos para a fauna silvestre com árvores como aroeira, figueira, angico-vermelho, piúva, ipê-roxo e cambará.

 

Foto do capão e da cordilheira

 

Outra visão peculiar é a flora das baías, as lagoas do Pantanal. Bastantes características da região, as baías podem ser temporárias ou permanentes e são conhecidas pela deslumbrante visão aérea de sua fisionomia. Nas lagoas permanentes são comuns grandes aglomerações de aguapés e camalotes e a vegetação aquática conhecida como baceiro ou batume, formada por diversos tipos de plantas aquáticas flutuantes, emergentes ou submersas tais como chapéu-de-couro, vitória-régia, alface-d’água, pé-de-sapo, camalote e trevo-de-quatro-folhas.

 

A lagoa chamada de salina, sem cobertura de plantas aquáticas, tem água salobra e coloração verde devido às densas populações de algas. Ao redor das salinas há uma faixa estreita de areia bem clara rodeada de vegetação arbórea e arbustiva (árvores e arbustos).

 

Foto da salina

 

Foto do baceiro e baía

 

Quando as águas começam a baixar, escoam em direção ao rio Paraguai e carregam consigo grande diversidade de espécies da flora que se espalha pela planície buscando ambientes favoráveis à adaptação. Os peixes que não voltam aos rios ficam abrigados nas lagoas e servem como alimento para outros animais. O baceiro vai preenchendo corixos e rios e em pouco tempo há grande multiplicação da vegetação. Com a chegada da seca, as vazantes transformam-se em campos com gramíneas (pastagens naturais) que florescem na primavera e verão forrando o chão de pequenas flores. Durante a seca, as florestas semidecíduas (em que as folhas caem) forram o chão de folhas, contribuindo com nutrientes para o solo.

 

 

Veja mais:

Plantas do Pantanal ( http://www.cpap.embrapa.br/plantas )

- Fotos de plantas do Pantanal contendo ficha de características de cada uma (nome científico, hábito de crescimento, utilização, ecologia, etc).

Fauna silvestre

 

No imaginário, Pantanal é sinônimo de bicho. Considerado um dos maiores centros de reprodução das Américas, quase toda fauna brasileira está representada nesta região. A deslumbrante planície apresenta aos visitantes o espetáculo raro de ficar frente a frente com animais de grande e pequeno porte. As aves são um espetáculo à parte, uma infinidade de cores exclusivas do universo pantaneiro. O tuiuiú, ave símbolo do Pantanal é avistado livremente, com sua imponente envergadura, com asas abertas pode chegar a dois metros. As garças promovem revoadas, as capivaras passam aos bandos e os numerosos jacarés, figuras mansas, ficam à espreita, ao redor das lagoas ou dentro d’água. O cor-de-rosa dos colheireiros, as araras-azuis-grandes, os biguás e a esperança de ver uma onça-pintada ou uma sucuri refletem a diversidade única do Pantanal.

 

Os períodos de secas e cheias modificam radicalmente as paisagens. Durante metade do ano as águas sobem e os animais não são avistados com freqüência. Já nos seis meses de seca, a fauna é encontrada facilmente. Os animais amontoam-se ao redor das lagoas para se alimentar dos peixes e plantas. Os animais também estão adaptados às condições de cheia e seca e refugiam-se nas áreas não-inundáveis como as cordilheiras e capões.

 

A fauna distribui-se conforme o regime das águas. Durante a vazante, formam-se brejos e lagoas temporárias em depressões rasas onde ficam retidos inúmeros organismos. Assim como nos corixos (cursos d’água temporários), quando as águas secam completamente muitas espécies de peixes ficam retidas. A alta densidade de peixes desses locais estabelece as condições ideais para a alimentação e reprodução de aves migratórias. Em grupos numerosos, muitas vezes diferentes espécies agrupam-se em viveiros e ninhais repletos de aves que vivem em colônias.

 

Outra singularidade pantaneira é a fauna aquática, com mais de 300 espécies de peixes. A inundação é a responsável pela grande produção de peixes. Seja de couro, de escamas, de grande ou pequeno porte, essa abundância reflete a cultura pantaneira, onde grande parte do povo vive da pesca e detém conhecimentos valiosos da cultura regional. A região tem mais de 3.500 pescadores profissionais e a modalidade de pesca esportiva pesque-solte é um incentivo ao turismo regional.

 

Com a chegada das estações quentes e chuvosas no fim da primavera e início do verão começa no Pantanal um dos maiores fenômenos da natureza, a piracema quando grandes cardumes de peixes de várias espécies sobem os rios em direção as cabeceiras para se reproduzirem (migração reprodutiva). A piracema ocorre nas regiões de grandes inundações com espécies de importância para a pesca como o pintado, o dourado e o pacu. Há espécies que ficam nas lagoas remanescentes até a chegada da cheia seguinte a espera no novo encontro o rio, quando aproveitam para voltar ao leito e buscar um local para a reprodução. Outras espécies adaptam-se as lagoas e ali vivem e se reproduzem com um número reduzido de ovos. Este é o caso da piranha e carás, espécies consideradas forrageiras por servirem como alimento para os peixes maiores.

 

Entra tabela com números de espécies da fauna silvestre

 

A Embrapa Pantanal vai confirmar os dados semana que vem para este quadro

 

Ameaças à fauna

 

O desmatamento é um grande risco para a fauna da região, assim como a introdução de animais exóticos. Algumas espécies da fauna como o mexilhão-dourado, molusco que se alastrou pela região do rio Paraguai causa entupimentos e invasão dos ambientes naturais. No período da seca, as queimadas são uma grande ameaça para toda a planície. O hábito de queimar a pastagem para que se revigore, na seca, intensifica os males do clima seco e encobre a planície de fumaça.

 

Nos últimos anos foram desenvolvidos diversos projetos de sensibilização no Pantanal buscando informar os fazendeiros e a população em geral sobre os perigos das queimadas. O quadro melhorou, mas a planície continua encoberta de fumaça nos períodos de estiagem. Essa situação constitui-se num dos grandes desafios para a conservação das espécies pantaneiras.

 

Com a substituição natural de campos alagáveis por plantas invasoras arbustivas e arbóreas, está ocorrendo uma pressão sobre as cordilheiras para aumentar a pastagem do gado durante as cheias. Esta forma de manejo reduz os habitats dos animais silvestres, que dependem desses locais como refúgio durante as enchentes. Manter a vegetação é condição básica para a exuberância da fauna continue a existir. A arara-azul, por exemplo, prefere os galhos do manduvi (?) para fazer seus ninhos, sem a árvore a reprodução das espécies pode ficar comprometida.

 

Vários animais freqüentes na planície pantaneira estão na lista oficial dos animais ameaçados de extinção. Entre eles cervo-do-pantanal, lobo-guará, arara-azul, ariranha e a onça-pintada. Em outras regiões do Brasil esses animais foram praticamente extintos, no Pantanal são vistos com freqüência. Só em Mato Grosso do Sul, estado brasileiro com a maior área do Pantanal, estão na lista oficial dos animais extinção 37 espécies. Entre as que desapareceram está a arara-azul-pequena.

 

Entre os animais mais ameaçados está a onça-pintada, animal de grande porte que necessita de amplo território para viver. O felino disputa com fazendeiros o espaço pantaneiro e não são bem-vindas, porque muitas vezes atacam rebanhos de gado para alimentarem-se causando prejuízos econômicos. A diminuição das matas densas do Pantanal gera uma grande pressão aos habitats e pode causar a extinção de espécies da fauna.

 

Veja mais:

Peixes do Pantanal (http://www.cpap.embrapa.br/agencia/009peixespantanal.htm)

- Figuras de Peixes do Pantanal contendo ficha em português e inglês, como o nome vulgar e científico e demais características.

Fauna: principais animais do Pantanal (ver fotos)

 

Arara-azul-grande, Jacaré, Peixes: pintado, dourado, surubim e piraputanga

Onça, Tuiuiú, Capivara, Sucuri, Lobinho, Tamanduá, Anta,

Prego, Lontra, Colheireiro, Veado campeiro, Garça

 

Referências

ABDON, M.M.; SILVA, J.S.V. Delimitação do Pantanal Brasileiro e suas sub-regiões. In: Pesquisa Agropecuária Brasileira. Embrapa, v.33, nº 10. Brasília/DF, 1998 (pp. 1703-1711). Disponível em http:// atlas.sct.embrapa.br

AB’ SABER, A. N. O Pantanal Mato-grossense e a teoria dos refúgios. In: Revista Brasileira de Geografia. IBGE, Número Especial, Ano 50, T. 2. Rio de Janeiro, 1988. (p. 9-57).

BRITO, S. H. A.A . (Coord.). Culturas indígenas.  Campo Grande: UFMS, 1991.

CONSERVAÇÃO INTERNACIONAL. Pantanal. Disponível em: www.conservation.org.br/ onde/ pantanal, acesso em 11/05/2007.

POTT, A & POTT, V.J. Plantas Aquáticas do Pantanal. Brasília: Embrapa, 2000

SARTORI, Ângela. Chaco de Porto Murtinho, único no Brasil In: na Água: uma abordagem transfronteiriça da bacia do Apa. Editora UFMS. Campo Grande, 2008.

SOUZA, P.R. (org.). Coleção valorizando a biodiversidade no ensino de botânica. Campo Grande. Editora UFMS, 2006.

 

 

 

 

 
 
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